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terça-feira, 8 de setembro de 2020

"FUMO TRÊS MAÇOS POR DIA" DIZ USUÁRIO

Tabagismo cresce na pandemia e gera alerta para onda de câncer de pulmão

Ao menos 34% dos tabagistas indicam que passaram a fumar mais; Além de fator de risco para sintomas graves de Covid-19, hábito é o principal responsável pelo surgimento de tumores pulmonares

isolamento social , medida adotada pelas autoridades para frear o contágio do novo coronavírus (SARS-Cov-2), mexeu com o psicológico de muitas pessoas ao redor do mundo. Só no Brasil, segundo um levantamento da Universidade do Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), os casos de ansiedade aumentaram em 80%.

Além disso, a prática de ficar em casa ininterruptamente têm gerado outros comportamentos na população, como o aumento do tabagismo . De acordo com um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), feito em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Estadual de Campinas, 34,3% dos que se declararam fumantes passaram a consumir mais cigarros por dia durante o período de isolamento social: 22,8% aumentaram em dez, 6,4% em até cinco e 5,1% em 20 ou mais cigarros.

Corroborando os estudos, em entrevista ao Portal, o Dr. José Rodrigues Pereira, pneumologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo - culpa o momento atípico. 

“Com o distanciamento, as pessoas ficaram mais apreensivas e inseguras em relação ao emprego, à possibilidade de contrair a doença, preocupadas com a manutenção da renda e com a saúde. Toda essa ansiedade acumulada foi descontada não só no cigarro, mas também na bebida alcoólica, que é uma combinação explosiva, visto que o consumo de álcool favorece o de cigarro”.

Lucca Santos, designer de 23 anos, fumava em média um maço de cigarro por dia, ou seja, 20 cigarros. Com a pandemia do coronavírus ele se viu em regime de teletrabalho e esse número saltou para quase três maços ao dia. 

“Antes eu tinha a rotina de trabalhar em um ambiente fechado, cumprindo horários, tendo toda aquela dificuldade de sair para o fumódromo. Com o trabalho remoto, adquiri o hábito de fumar enquanto trabalho, com o cinzeiro ao lado do computador”, relatou.

Para Felipe Rodrigues, auxiliar administrativo de 25 anos, a situação é um pouco diferente. Antes ele fumava de três a cinco maços (60 a 100 cigarros) em uma semana. Todavia, com o surgimento do isolamento ele se viu afastado do trabalho por 10 dias. Com isso, a ansiedade aumentou, sobretudo, quando o governo cogitou um lockdown . A partir daí ele passou a consumir de um a dois maços por dia - que equivale a quase 280 cigarros na semana.

“Notei que meu consumo aumentou quando a situação da quarentena piorou, principalmente, quando cogitaram fazer um lockdown. Esse futuro [incerto] acho que atacou a ansiedade e quem fuma sabe como é, a gente acaba descontando no cigarro”, declarou. “Atualmente têm dias que eu fumo um maço (20 cigarros), têm dia dia que eu fumo dois maços (40 cigarros), mas é bem variável”, acrescentou.

Questionados sobre a que fatores atribuem o aumento do consumo, os entrevistados não pestanejam. “O fumo é atrelado, no meu caso, à ansiedade. E percebi que o consumo aumentou, principalmente quando passei a consumir muito mais informações sobre a pandemia. Decidi me distanciar um pouco do noticiário para controlar o consumo. E tem dado muito certo. Tem dia que fumo cinco cigarros. [Mas] quando tenho ansiedade mais aguda, tudo se descontrola e volto a fumar três maços”, avaliou Lucca.

Felipe, por sua vez, segue a mesma linha de pensamento. “Eu atribuo esse aumento ao momento que estamos vivendo, é um período muito ocioso, para minha pessoa pelo menos, causa muita ansiedade”.

Para Jacques Tabacof , médico do Centro Paulista de Oncologia, o consumo de cigarros é um problema de saúde pública que não pode ser ignorado, mesmo durante a pandemia. “É preciso reforçar que precisamos superar essa batalha contra a Covid-19 sem deixar de lado outros cuidados com nosso corpo”, ponderou. 

“A luta contra o tabagismo não pode ser abandonada, sob o risco de termos não apenas uma onda de tumores malignos, entre eles o câncer de pulmão - que tem íntima relação com este hábito nada saudável - mas de outras doenças respiratórias", acrescentou ele.

Covid-19 x Cigarro

Segundo um levantamento realizado pela Instituto Nacional de Câncer (INCA), mais de 30 mil pessoas devem ser diagnosticadas com tumor no pulmão em 2020. De acordo com Jacques, essa realidade poderia ser modificada já que cerca de 85% desses casos estão ligados ao tabagismo.

O oncologista ainda salientou: “além de ser fator de risco para o câncer e várias outras doenças, o tabagismo é certamente um dos hábitos que contribui para formas mais graves de infecção por coronavírus”.

Para piorar, o prognóstico de pessoas fumantes não é nada positivo. “Tabagistas costumam já ter sintomas como tosse, rouquidão, falta de ar e até pneumonias recorrentes, o que, somadas à infecção por Covid-19, levam a uma piora no quadro geral do paciente e sua consequente recuperação”, seguiu Tabacof.

Luz no fim do túnel?

Ao falar sobre como pessoas podem diminuir o consumo de tabaco durante o isolamento, o pneumologista José Rodrigues - citando a retomada econômica - aconselha que as pessoas se adaptem à nova realidade e, caso fiquem muito apreensivas, que pratiquem exercícios físicos ao ar livre - sempre mantendo o distanciamento social.

“Como teremos que conviver com o vírus por algum tempo até que as diversas vacinas em desenvolvimento sejam disponibilizadas, é necessário se adaptar ao novo cenário. O que oriento, visto que está ocorrendo uma reabertura gradual de alguns setores da economia, é que essas pessoas ocupem mais o dia com atividades saudáveis como exercícios ao ar livre, por exemplo, sempre seguindo as medidas de segurança e mantendo o distanciamento social”, aconselhou.

“Claro que é necessário força de vontade também, pois não é fácil lidar com o problema. Mas é possível corrigi-lo, preenchendo o tempo com atividades prazerosas e seguras para não ficar ocioso. Assim, haverá diminuição do consumo do cigarro de forma gradual”, diz o especialista.

Apesar do alto consumo e das consequências, Lucca e Felipe não planejam deixar o vício tão cedo, talvez após a crise sanitária: “Eu como todo bom fumante já tentei controlar o consumo excessivo, mas no momento estou sem expectativa nenhuma para isso. Após o período de pandemia a minha intenção é parar mesmo”, pontua o auxiliar administrativo.

Lucca também não faz rodeios. “Minha ideia é parar de fumar de vez, mas não tenho me cobrado isso. Sei que é um processo que deve ser acompanhado com um especialista, que ainda não me senti à vontade para procurar. Distante da família e dos colegas de trabalho, o cigarro ainda é meu companheiro em meio à pandemia”, finalizou.

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