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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Carnaval 2020 terá pior apresentação da escola de Samba Mangueira, que fará apresentação que ridiculariza nosso senhor Jesus Cristo

Jesus será ridicularizado no carnaval da Mangueira


Jesus será ridicularizado no carnaval da Mangueira; A arte por essência tem a obrigação de ultrapassar limites e estimular a imaginação ao extremo. Caso contrário, corre-se o risco de nem ser arte e, o que pior, algo de segunda, pastiche transformado em “mais do mesmo”.

Como seria se Jesus Cristo retornasse aos dias de hoje, e o seu berço fosse o morro da Mangueira? A resposta a esta pergunta é o centro de uma polêmica que se libertou dos bastidores e parece ser o furacão mais virulento deste início de 2020.

A temperatura pré-carnavalesca cresceu velozmente nos últimos dias. O clima está tenso. Uma nota curta de Ancelmo Góis sintetizou o que anda acontecendo:

“Depois do especial de Natal do Porta dos Fundos que mostrou um Cristo gay, setores obscurantistas espalharam pelas redes que a Mangueira iria fazer o mesmo no desfile deste ano, já que o enredo “A verdade vos fará livre” é sobre o filho de Deus. Diante da “onda de notícias falsas”, o carnavalesco Leandro Vieira denunciou “essas maldades”, em suas redes:
— Minhas tintas são plurais, diversas, dotadas de responsabilidade, beleza e respeito”.

O pesquisador João Gustavo Melo foi um dos que saíram em defesa da liberdade de criação. Ele alerta para o risco do movimento conservador que agora move suas baterias contra a Mangueira:

Jesus será ridicularizado no carnaval da Mangueira
Jesus será ridicularizado no carnaval da Mangueira

O carnavalesco Mauro Quintaes defendeu a liberdade de criação e a importância de Leandro Vieira para o Carnaval brasileiro, embora não fosse direto quanto ao que motiva a agitação:

Além do talento e excelência de Leandro Vieira existe um outro fator importante para que ele prossiga sua carreira de sucesso: a chancela da direção da Estação Primeira.

Na época de renovação do seu contrato de 2018 para 2019, o presidente da agremiação Chiquinho da Mangueira demonstrou sua confiança publicamente: “Minha relação com o Leandro sempre foi de diálogo e de palavra e por isso hoje tenho o prazer de informar a toda nação mangueirense que ele estará com a Mangueira nos brindando com mais um belíssimo Carnaval. Ele se comprometeu a estar comigo até quando eu estiver presidente e nossa contrapartida é dar as melhores condições possíveis de liberdade de criação ao artista que ele é”, disse Chiquinho.

A união que liga o artista e a direção será testada neste Carnaval com a polêmica que parece crescer como enchente rua abaixo. O que mais incomoda aos conservadores é o enredo e a letra do samba que a Mangueira pretende apresentar neste Carnaval 2020. Se você ainda não conhece, clique abaixo:

Religiosos e pessoas ligadas à igrejas de diferentes denominações falam que a Mangueira está de braços dados com a blasfêmia. O que eles temem que é Cristo seja ridicularizado.

Já surgiu nas redes até pedido de abaixo-assinado contra a letra do samba da Mangueira:

 

O que diz Leandro Vieira?

O carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, publicou em suas redes sociais um texto contestando “inverdades” sobre o enredo da Mangueira. Ele disse que há desconhecimento total sobre o projeto que realiza de forma sigilosa para a Mangueira.

O carnavalesco destacou que a “verdade é que, como previsto, na tentativa de ‘inventar mil pecados’, está refletida a frustração de uma gente que teme que o desfile de uma escola de samba comunique de forma mais vigorosa, popular e potente a face – ou melhor, as faces – de Cristo, do que aqueles que o domesticaram para lhe colocar na condição de fiador de interesses econômicos e políticos.”

Tô vendo uma onda de notícias falsas sobre as minhas propostas para o Carnaval de 2020 sendo espalhadas pelas pelos grupos de ZAP e redes sociais. Fazer da biografia de Cristo a matéria artística para a realização do meu Carnaval tá sendo uma experiência incrível porque as tintas escolhidas são as melhores. Minhas tintas são plurais, diversas, dotadas de responsabilidade, beleza e respeito.

As inverdades propagadas são muitas. Todas, baseadas no mesmo princípio: o desconhecimento total do que é o projeto que realizo de forma sigilosa e a incapacidade de vislumbrar o que apenas a minha cabeça guarda na totalidade.

Tô com muito trabalho e não tô com tempo para estar nas redes sociais nesse pré Carnaval. Gostaria de dizer de forma breve que apenas o que é dito por mim em entrevistas com falas públicas ou divulgado nas minhas redes – ou nas redes sociais da @mangueira_oficial – pode ser considerado verdade. Qualquer declaração que não seja oficial que especule o conteúdo do meu trabalho só encontra respaldo na maldade de gente limitada que, além de desconhecimento, não suporta a potência estética, histórica, cultural e social que o Carnaval e o desfile de uma instituição do tamanho da Mangueira pode alcançar. A verdade é que, como previsto, na tentativa de “inventar mil pecados”, está refletida a frustração de uma gente que teme que o desfile de uma ESCOLA DE SAMBA comunique de forma mais vigorosa, popular e potente a face – ou melhor, as faces – de Cristo, do que aqueles que o domesticaram para lhe colocar na condição de fiador de interesses econômicos e políticos.

O enredo oficial

O enredo divulgado pela escola em 2019, traz pistas de como será o Carnaval deste ano:

“Nasceu pobre e sua pele nunca foi tão branca quanto sugere sua imagem mais popular. Sem posses e mais retinto do que lhe foi apresentado, andou ao lado daqueles que a sociedade virou as costas oferecendo-lhes sua face mais amorosa e desprovida de intolerância. Sábio, separou o joio do trigo, semeou terrenos férteis e jamais deixou uma ovelha sequer para trás.

Exaltou os humildes e condenou o acúmulo de riqueza. Insurgiu-se contra o comércio da fé e desafiou a hipocrisia dos líderes religiosos de seu tempo. Questionou o poder do império romano e condenou a opressão. Seu comportamento pacifista e suas ideias revolucionárias inflamaram o discurso dos algozes que passaram a excitar o estado a decretar sua sentença. O fim todos sabemos: Foi torturado, padeceu e morreu.

Séculos depois, sua trajetória ainda anda na boca dos homens e em seu nome, para o mal dito “de bem” – e com rígido contorno de moralidade – muito já foi realizado de forma estanque ao  sentido mais completo do AMOR por ele difundido. O amor incondicional, irrestrito e ágape.

Por isso, quando preso à cruz, ele não pode ser apresentado como um. Ser um, exclui os demais. Preso à cruz, ele é a extensão de tantos, inclusive daqueles que a escolha pelo modelo “oficial” quis esconder.  Sendo assim, sua imagem humana não pode ser apenas branca e masculina. Na cruz, ele é homem e é também mulher. Ele é o corpo indígena nu que a igreja viu tanto pecado e nenhuma humanidade. Ele é a ialorixá que professa a fé apedrejada e vilipendiada. Ele é corpo franzino e sujo do menor que você teme no momento em que ele lhe estende a mão nas calçadas. Na cruz, ele é também a pele preta de cabelo crespo. Queiram ou não queiram, o corpo andrógino que te causa estranheza, também é a extensão de seu corpo.

Sem anunciar o inferno, ele prometeu que voltaria. Acredito que, se ele voltasse à terra por uma encosta que toca o céu – para nascer da mesma forma: pobre e mais retinto, criado por pai e mãe humilde, para viver ao lado dos oprimidos e dar-lhes acolhimento – ele desceria pela parte mais íngreme de uma  favela qualquer dessa cidade. Talvez na Vila Miséria*, região mais alta e habitada do Morro de Mangueira. Ali, uma estrela iluminaria a sala sem emboço onde ele nasceria menino outra vez. Então, ele cresceria entre os becos da Travessa Saião Lobato*, correria junto das crianças da Candelária*, espalharia suas palavras no Chalé* e no “Pindura” Saia*. Impediria que atirassem pedras contra os que vivem nas quebradas e nos becos do Buraco Quente*. Estaria do lado dos sem eira e nem beira estranhando ver sua imagem erguida para a foto postal tão distante, dando as costas para aqueles onde seu abraço é tão necessário.

Se sobrevivesse às estatísticas destinadas aos pobres que nascem em comunidades, chegaria aos 33 anos para morrer da mesma forma. Teria a morte incentivada pelas velhas ideias que ainda habitam os homens. O amor irrestrito ainda assusta. A diferença jamais foi entendida. Estender a mão ao oprimido ainda causa estranheza. Seria torturado com base nas mesmas ideias.

Morto, ressuscitaria mais uma vez e, por ter voltado em Mangueira, saudaríamos a possibilidade de vermos seu sorriso amoroso novamente com o que aqui fazemos de melhor. Louvaríamos sua presença afetuosa com samba e batucada. Vestiríamos todos nossa roupa mais cara. Aquela de paetês e purpurina. De cetim com joias falsas. Desfilaríamos diante dele e, em seu louvor, instauraríamos a lei que rege nossos três dias de folia. Sem pecado, irmanados e em pleno estado de graça.

Explicaríamos nessa ocasião que a cruz pesada que carregamos como fardo ao longo do ano nos é tirada das costas no Carnaval. Por ter vencido a morte e sem ter o peso de sua cruz nas costas, ele sorri para a baiana que desce para se apresentar. Ele acena com a mão direita para a passista que amarra a sandália, enquanto a mão esquerda dá a benção para o ritmista que rompe o silencio com a levada de seu tamborim.

Fitando o céu, ele parece ver algo ou alguém acima da linha do horizonte . Sorri, como se pego em meio a brincadeira e se soubesse humano também.  Entendendo que ali ele é rebento e que todos, sem exceção, são seu rebanho; ciente de que o pecado, por vezes, é invenção para garantir medo e servidão, ele pede para que toda essa gente que brinca anuncie enquanto canta sorrindo: A VERDADE VOS FARÁ LIVRE.

Vila Miséria* Travessa Saião Lobato* Candelária* Chalé* Pindura Saia* Buraco Quente* – Todos os nomes referem-se a localidades ocupadas pela comunidade do Morro da Mangueira.

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